Do ritual ao comércio: a banalização dos caretos

Recentemente um familiar nosso veio matar saudades a Trás-os-Montes e, a caminho de Bragança, fez uma paragem no Azibo. Na sua opinião Santa Combinha está a perder a sua identidade, e Podence cedeu à sobrecomercialização dos caretos.

Custa-nos a admitir, com o amor que temos pela nossa terra, mas há aqui um fundo de verdade. Quanto a Santa Combinha, já abordámos neste site o problema da destruição do património.

Em relação a Podence, temos óptimas amizades com os nossos vizinhos e orgulho na nossas tradições transmontanas. No entanto, é um facto que, sobretudo após o reconhecimento da UNESCO em 2019, a tradição dos caretos tem sido banalizada e sobreexplorada.

Obviamente, é louvável que se continue a celebrar a tradição e que haja um evento anual e um museu para transmitir o seu valor. No entanto, é lamentável que um antigo ritual pagão tenha sido transformado numa máquina comercial, que destrói a autenticidade.

“O que está a acontecer não é inovação, mas vulgarização da cultura. Cultura como fast food.”

O ritual original dos caretos, marcado por uma relação íntima com a natureza, tornou se um espectáculo coreografado, com muita fanfarra e uma imponente queimada, mas onde muitos participam, provavelmente sem saber exactamente o que estão ali a fazer. Por outro lado, o antigo rito de celebração da fertilidade deu lugar a um banal e infantil ritual de “chocalhar” raparigas, sem que haja um sentido mais profundo, mais poético, mais autêntico.

As cores dos trajes, excessivamente vivas, foram provavelmente escolhidas para maior visibilidade, mas são pouco compatíveis com o que teriam sido os trajes na tradição pagã original, onde os materiais e corantes disponíveis teriam produzido cores mais discretas.

A aldeia de Podence está a ser reduzida aos caretos. A propaganda está por todo lado: cartazes, murais, placas, sinais, máscaras… tudo apontando para uma tradição que, no museu, se limita a um conjunto de objectos, falhando em evocar o espírito dos rituais ancestrais.

A desfiguração do património para promoção turística…
A banalização da cultura para fins comerciais…

Hoje, compra-se licor dos caretos, vinho dos caretos, azeite dos caretos, queijo dos caretos, etc. que na maioria nem em Podence são produzidos, e nada têm a ver com a tradição ancestral. O que virá a seguir? Bonés e chinelos? Simultaneamente, os caretos surgem em todo o tipo de eventos e promoções — incluindo fast food (?) — banalizando o ritual e o mistério que antes os envolviam. É lamentável, pois a tradição dos caretos, na sua manifestação pura e original, é fantástica.

Num país mas civilizado teria-se provavelmente optado por valorizar em vez de explorar a tradição. Manter um certo mistério, em vez de expor máscaras e murais por todo lado. Integrar o museu num edifício que transportasse o visitante a tempos ancestrais, em vez de um edifício genérico que falha em transmitir o espírito do lugar. Criar uma experiência que se deve explorar e descobrir, em vez de ser algo que nos é exclamado e “atirado à cara”.

Voltamos assim ao debate sobre a visão cultural e turística das autoridades. O que está a acontecer não é inovação, mas vulgarização da cultura. Cultura como fast food.

É possível que as massas apreciem a “cultura simplificada”… mas aborrece quem procura autenticidade, história e conteúdo.

(Fotografia: Caretos de Podence)