Trás-os-Montes

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“Para lá do Marão, mandam os que lá estão” — mas será que estão a mandar bem?

A intenção desta página não é promover Trás-os-Montes, mas partilhar a nossa perspectiva sobre os desafios da região — que, obviamente, se reflectem em Santa Combinha.

Quem visitou Trás-os-Montes ao longo das últimas décadas provavelmente notou uma transformação significativa: o despovoamento das aldeias, o desaparecimento de tradições como a produção artesanal de pão, queijo, vinho e fumeiro, e o desgaste do património. É comum ouvir um certo fatalismo: a agricultura não é rentável, os apoios são insuficientes, as oportunidades são escassas, e a política muitas vezes promete, mas pouco muda.

Infelizmente, há aqui um fundo de verdade. A globalização não tem sido favorável a Trás-os-Montes — antes pelo contrário. Porém, o problema essencial não é a globalização em si, mas a falta da capacidade para redefinir e adaptar Trás-os-Montes a uma nova realidade.

As autoridades têm seguido uma estratégia essencialmente tecnocrática, focada na economia, através do investimento em infraestruturas. No entanto, as últimas décadas provaram que essa estratégia — apesar dos benefícios a curto prazo — não tem gerado um impacto estrutural. O desenvolvimento da região continua dependente de subsídios e apoios externos, faltando dinamismo e resiliência.

O desafio cultural

O investimento em infraestruturas e os estimulos económicos, por si só, não geram um desenvolvimento sustentado. Falta uma componente cultural, fundamental, assente em valores: abertura de espírito, valorização da educação, consciência ambiental e o respeito pelo património.

Este contexto cultural é vital para sabermos preservar a nossa identidade, enquanto adaptamos, de forma sustentável, a nossa região a um mundo em evolução.

Apesar de diversas iniciativas e reconhecimentos — Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo, Geopark, Reserva da Biosfera, Rede Natura 2000, etc — nas aldeias continuam a ver-se contentores a transbordar de lixo (não reciclado), resíduos abandonados nos campos, desgaste do património, e construções dissonantes com o meio rural.

Para um desenvolvimento sustentado, é indispensável fomentar o civismo, o respeito e a iniciativa — para que todos possam participar.

Apesar das oportunidades para reabilitar ou converter edifícios nas aldeias, acabamos por descaracterizar a nossa paisagem com projectos genéricos e dissonantes.
Há excepções, como o antigo centro e a Cidadela de Bragança.

O desafio estratégico

Trás-os-Montes enfrenta um dilema. Antigamente, a região, embora subdesenvolvida, oferecia uma experiência quase inacreditável para quem vinha de fora. A natureza era simplesmente deslumbrante e, contrastando com o isolamento e a ruralidade, existiam verdadeiras instituições, como a Pousada do Marão e a Estalagem do Caçador, que ofereciam uma qualidade excepcional.

Mas hoje, após décadas de desenvolvimento, em termos de infraestrutura turística, pouco ou nada existe que seja verdadeiramente digno de destaque. Ao mesmo tempo, é hipotecada a maior riqueza da região: a natureza e património. A paisagem natural é descaracterizada por empreendimentos turísticos de qualidade duvidosa, enquanto, nas aldeias, o património desaparece e é substituído por construções genéricas e dissonantes.

Pensou-se que, com a construção de infraestruturas, a região se iria desenvolver automaticamente. Mas, para além do facto de a construção, por si só, não ser o catalisador do desenvolvimento, nunca houve uma visão holística e de longo prazo para a nossa região.

E, sem essa visão, Trás-os-Montes arrisca-se a não se afirmar nem pelo seu desenvolvimento (continuando dependente de apoios), nem pelo seu património (cada vez mais ameaçado).

A oportunidade

Quando existem desafios, apresentam-se oportunidades.

Todos devemos contribuir — as autoridades ao nível de legislação e da sensibilização, e todos nós, no dia-à-dia. Valorizando a nossa riqueza natural e cultural, preservando as nossas tradições, optando pela agricultura biológica, promovendo a biodiversidade, e apostando num turismo de qualidade.

Só assim poderemos preservar a nossa identidade e manter a nossa “marca regional” — uma proposta única para o turismo, essencial à nossa região.

Num mundo cada vez mais urbanizado e homogéneo, muitos procuram momentos genuínos: natureza, património, gastronomia.

É perfeitamente possivel aliar a ruralidade ao desenvolvimento. Devemos apostar na riqueza que já temos e que muitos ainda não descobriram.

Vale a pena lembrar as palavras de Ann Bridge, nos anos 40, sobre Trás-os-Montes: “Uma das mais nobres regiões do continente Europeu”.