Santa Combinha

Introdução

Santa Combinha é uma aldeia no Nordeste Transmontano, situada no seio da Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo, no concelho de Macedo de Cavaleiros. Com cerca de 30 habitantes, Santa Combinha insere-se na transição entre a Terra Quente e a Terra Fria exibindo uma paisagem tradicional de minifúndio, marcada pelo olival, sobreiros e castanheiros.

Nas últimas décadas, a aldeia sofreu mudanças significativas. O despovoamento reduziu o dinamismo e a coesão social, enquanto tradições como a produção caseira de pão, queijo, fumeiros e vinho estão a desaparecer. Paralelamente, a arquitectura popular tem sido substituída por construções dissonantes, apagando a identidade da aldeia.

Um pouco de história…

Ao visitar Santa Combinha, facilmente se ignora a existência de vários sítios arquelógicos na proximidade da aldeia. Na Fraga da Pegada — local onde foi construída a praia fluvial do mesmo nome — e na Ilha do Cabeço do Fidalgo, foram encontrados conjuntos de arte rupestre remontando respectivamente à Idade do Ferro e Idade do Bronze.

No entanto, pouco ou nada se sabe sobre a história de Santa Combinha. Se é que de história se pode falar. Foram encontrados vestígios de ocupação Romana. Mas será que houve uma povoação permanente, desde ou já antes desse tempo? A escassez de vestígios sublinham o isolamento geográfico e o caractér rural deste lugar.

A referência mais antiga que encontrámos da aldeia, remonta às inquirições de 1258 — altura em que ainda era conhecida por São Geraldo de Santa Comba Nova. Em termos de cartografia, a referência mais antiga que encontrámos data de 1690. A actual igreja foi construída em 17*8 (*: número ilegível), data que se encontra gravada num lintel de granito. No arquivo da Torre do Tombo encontra-se uma “memória paroquial”, ou descrição da aldeia, datando de 1758, elaborada pelo então pároco.

Curiosamente, na altura havia 30 habitantes, sensivelmente o mesmo número de hoje. Não havia termo, nem quinta, nem couto, “nem outra qualquer couza honorífica”. As culturas predominantes eram o trigo, centeio, azeite e linho. O documento faz referência ao rio Azibro e Sardão (hoje vagamente conhecido como um lugar), nos quais se pescavam “peijxes miúdos” conhecidos por “sardas”. Escreve o autor que neste lugar ninguém se destacava “nem em letras, nem em armas, nem em virtude”. Curiosamente, a resiliência e perseverança — qualidades indispensáveis para se sobreviver num meio isolado e agreste como Trás-os-Montes — não foram dignos de memória.

A aldeia de São Geraldo de Santa Comba Nova, mencionada no Livro 2 das Inquirições de D. Afonso III (1258).
Extracto de uma descrição de Santa Combinha pelo pároco, Abb.e Mel. de Lemos, em resposta aos interrogatórios sobre as paróquias, pelo Secretário de Estado dos Negócios do Reino (1758).
Detalhe de um mapa de Portugal (Jacobum Robyn, 1690)
Mapa de Trás-os-Montes (Eng°. Benito Chias, 1903)

A construção da barragem do Azibo (1979-1983)

Não é de admirar que as condições topográficas que originaram o povoamento deste lugar, também foram propícias à construção de uma albufeira. Mas é sobretudo interessante que foi a aldeia de Santa Combinha, que na altura pouco ou nada significava, que mais contribuiu em área expropriada — pelo menos em termos relativos — para a construção da albufeira.

É interessante destacar que, segundo a nossa informação, a criação das praias fluviais foi uma iniciativa do eng.° Telmo Barbosa, responsável pela direcção da obra da barragem. Não admira que essa ideia não tenha sido iniciada pelas autoridades. Também não admira que a contribuição do engenheiro e da sua equipa não seja reconhecida publicamente. No entanto, existem placas bem visíveis, comemorando a visita de personalidades políticas.

Ironicamente, os agricultores da aldeia ficaram sujeitos a pagar para usufruir da água que os rodeia — a mesma água que submergiu os terrenos que antes lhes pertenciam, expropriados a preços, muito provavelmente, irrisórios. Assim ficou a aldeia, de certo modo, mal servida e mal paga. Mas, como o leitor calculará, a história não acaba aqui. Pois, na altura quem poderia ter previsto a criação da PPAA?

A albufeira do Azibo.

A Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo (1999)

Evidentemente, a combinação entre natureza selvagem e abundância de água criou as condições ideais para uma grande biodiversidade. Seria, portanto, de esperar que até mesmo no governo alguém se desse conta de que tal paisagem era digna de ser preservada. E assim aconteceu — mas, mais uma vez, foi Santa Combinha, devido à sua localização, que mais teve de contribuir. A área florestal mais densa do parque, os pontos panorâmicos, os trilhos, o parque de merendas e a praia da Fraga da Pegada pertencem quase na totalidade ao termo de Santa Combinha — agora completamente envolvido pelo perímetro da PPAA.

Assim, mais uma vez, a história repetiu-se: a aldeia que pouco ou nada tinha, ainda com menos ficou — em termos de património privado — sem receber qualquer reconhecimento ou compensação digna de referência. É verdade que a PPAA é um instrumento essencial para a preservação do património natural, criando espaços públicos de qualidade, com excelentes opções de lazer.

No entanto, tanto no caso da albufeira como no da PPAA, não houve a mínima preocupação em envolver a aldeia, nem em criar um plano para o seu desenvolvimento e preservação. Ironia das ironias, é sobretudo Santa Combinha que hoje dá vida ao concelho — através do seu polo turístico na época alta — e não o contrário. E, no entanto, a sua própria infraestrutura continua anémica, por falta de fundos, mas sobretudo por ausência de visão e interesse por parte das autoridades. E assim, chegamos aos dias de hoje.

O núcleo rural de Santa Combinha.

Santa Combinha, hoje

Se alguém hoje escrevesse uma nova memória paroquial, provavelmente repetiria a mesma falta de consideração cometida em 1758. De facto, a aldeia em si pouco tem para mostrar. Fora a sua igreja modesta, mas típica, a antiga escola primária — actualmente negligenciada — e uma dúzia de construções rurais ameaçadas, não existe infelizmente património digno de destaque. As construções dissonantes multiplicam-se, enquanto o estado dos contentores de lixo por vezes assusta…

Mas há uma atmosfera, uma sensação, que não se encontra em mais lado nenhum. Quem gosta, dificilmente larga. A hospitalidade e generosidade Transmontana, a natureza selvagem, o ar puro, o sossego, os sabores e os aromas do campo, a gastronomia típica — e, claro, a albufeira com as suas oportunidades recreativas —oferecem uma experiência ímpar.

Talvez o mais memorável de tudo ainda seja o convívio espontâneo entre habitantes e visitantes, em plena rua ou no Café Cruzeiro. Quem ouve as histórias antigas consegue imaginar a paisagem de outrora, agora submersa pela albufeira: vales, encostas e bosques rasgados pelo rio Azibo… Uma paisagem ora bucólica, ora agreste — um contraste profundamente transmontano. Um lugar onde, durante séculos, se sobreviveu apesar da, e graças à, natureza indomável.

Mas não devemos perder-nos em nostalgia. Devemos, sim, preservar e desenvolver o que recebemos, para o transmitir — com dignidade — às próximas gerações. Santa Combinha não precisa de grandes obras (antes pelo contrário). Precisa de algo mais essencial: em primeiro lugar, o respeito de todos nós. Mas também a valorização por parte das autoridades. Não se deveria continuar a utilizar esta aldeia e a sua paisagem para benefício e prestígio do concelho, sem um investimento proporcional na sua preservação e no seu desenvolvimento.