Nos anos 40, as escritoras Ann Bridge — esposa de Sir Owen St Clair O’Malley, embaixador Britânico em Lisboa — e Susan Lowndes atravessaram Portugal de norte a sul. Imagine: duas mulheres sozinhas, de carro, nos anos 40! As suas experiências resultaram no guia turístico The Selective Traveller in Portugal (O Viajante Selectivo em Portugal), publicado em 1949.
Naquela altura, Portugal era um país subdesenvolvido, em comparação com o Norte da Europa. No entanto, mesmo ao passarem por Trás-os-Montes, as autoras nunca criticaram a nossa região pelo seu isolamento ou carácter rural. Pelo contrário: ficou registado um grande elogio.
“Há uma espécie de selvageria esplêndida no clima e na paisagem — ventos gelados varrem os vastos planaltos ondulados no inverno; no verão, o sol incide com um calor e um esplendor intoleráveis sobre as intermináveis extensões de cevada, sobre as aldeias ressequidas; o pó branco das estradas sobe pelas janelas e pelo assoalho do carro, asfixiando o motorista. Ainda assim, o turista que deixa de visitar Trás-os-Montes na sua viagem por Portugal perde uma das mais nobres regiões do continente Europeu.”
Isto sublinha mais uma vez que a verdadeira riqueza de Trás-os-Montes é a nossa terra e na nossa natureza. Para quem tem cultura e sabe apreciar, não precisamos de welcome centers, bungalows, piscinas, passeios de barco guiados e outras bugigangas.
Infelizmente, se a embaixatriz passasse hoje por Trás-os-Montes, o entusiasmo seria provavelmente menor. Temos a IP4 e a albufeira, é certo. Mas a nossa “nobre região” está a ser desfigurada por construções dissonantes e pelo turismo de massas. As aldeias perdem identidade. E, enquanto aplaudimos os caretos, deixamos desaparecer outras tradições. As autoridades, em vez de intervirem, continuam a promover a construção de “caixotes” subsidiados.
Assim, talvez se ganhem eleições. Mas sem uma mudança cultural, sem visão estratégica, sem gestão responsável, não haverá — no Azibo ou no nosso concelho — um turismo de qualidade.
E enquanto as coisas não mudarem, é pouco provável a nossa terra voltar a encantar uma embaixatriz…


