Imagine que vive no Porto ou em Lisboa. Tráfico, poluição, vida apressada, alimentos processados,…
Um dia, ouviu falar no Azibo — nas praias, na natureza, no sossego, na gastronomia — e não resistiu. Decidiu ir à descoberta da tal “maravilha de Portugal”. Então, chegou a Santa Combinha, instalou-se na esplanada do café Cruzeiro, e ao perguntar pelos produtos da aldeia, ficou logo desiludido. Pois, praticamente não existem. Pão, queijo ou fumeiros já raramente, ou não, se fazem.
Ou seja, veio para a aldeia a sonhar com ingredientes locais, mas terá de comprar grande parte da sua alimentação no supermercado — excepto se tiver a sorte de encontrar “produtos da terra”, no mercado municipal.
Mesmo assim, mantém um espírito optimista. Conseguiu arranjar azeite da aldeia — pois esse, sim, ainda o fazemos — e conclui que, acompanhando a refeição com um vinho caseiro, as coisas não estão tão mal quanto isso.
Azar. Em Santa Combinha, até o vinho caseiro se encontra (quase) extinto… Numa região vinícola, onde o que não falta é terreno de cultivo… E ainda por cima nos dias de hoje, onde por toda a Europa, há um boom de micro-produtores de vinhos naturais, biológicos, bio-dinâmicos, etc. Alguns até lançam a actividade puramente por paixão, vindo de países sem tradição vinícola, sem formação técnica, nem vinhas próprias.
E nós? Temos o terroir, a tradição, as vinhas, as castas, os lagares, o know-how — temos tudo, ou quase tudo… Mas não temos interesse. É verdade que a produção e/ou comercialização de vinho não esteja ao alcance de todos. No entanto, é incompreensível a falta de interesse por parte da nova geração.
Em Portugal, persiste um preconceito absurdo — sobretudo entre a classe média — de que a agricultura é uma ocupação para pobres. Ironicamente, há micro-produtores de vinho a ganhar muito bem a vida. Mesmo assim, a muitos não lhes apetece sujar as mãos. Fica mal. O que pensarão os amigos? Que precisamos de trabalhar no campo, para ganhar o pão? Que vergonha!
O resultado é que estamos a tentar promover um turismo de qualidade — em parte assente na nossa “rica” gastronomia — mas aos visitantes, nem um vinho caseiro podemos oferecer. E se ainda o podemos, a continuidade está longe de ser garantida.
Os Transmontanos gostam de pensar que são valentes. E seriam, se defendessem as suas tradições. Imagine um vinho natural de Santa Combinha, listado num restaurante de Paris, Berlim ou Copenhaga. Hoje é pouco provável — mas com outra mentalidade, seria possível.


